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Nasci no Recife, capital de Pernambuco, um dos 26 Estados do Brasil. Sou jornalista diplomada, amante da vida e de tudo que é positivo, verdadeiro e autêntico. Deixei as águas do Capibaribe, o mais famoso rio que banha o Recife. Atravessei o Oceano Atlântico e desaguei no rio Tejo, que acalenta Lisboa. E para aproximar esses dois lugares tão distantes mas com fortes ligações históricas e culturais, dei início a construção desta "ponte" Pernambuco-Portugal.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Avenida Almirante Gago Coutinho e Avenida Sacadura Cabral - Lisboa

Gago Coutinho e Sacadura Cabral

Por Maria do Céu Carvalho Dias*

Hoje escrevo sobre o Almirante Gago Coutinho e o Comandante Sacadura Cabral, que dão o nome a duas avenidas lisboetas, porque estas personalidades realizaram, em 1922, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. A Avenida Almirante Gago Coutinho localiza-se, se nos reportarmos à nossa planta das Freguesias (1), nas freguesias números 17 e 19, sendo uma via bastante larga, que faz a ligação entre a Praça do Areeiro e a Rotunda do Aeroporto, conhecida de alguns dos leitores; era ladeada de vivendas, muitas agora abandonadas ou restauradas e apresenta uma belíssima zona verde, o Parque José Gomes Ferreira, também conhecido por Mata de Alvalade, onde se pode usufruir de locais para merendas, de um circuito de manutenção, de caminhos pedonais e de ciclovias e de um parque infantil; faz o escoamento de Lisboa pela auto-estrada do Norte, a A1. A avenida Sacadura Cabral fica na freguesia número 17, ligando uma zona importante e bonita da cidade, a Avenida de Roma, que nasceu em meados do século XX, e a Praça do Campo Pequeno, onde fica a bonita e centenária Praça de Touros lisboeta.

Quem são Gago Coutinho e Sacadura Cabral? Falemos primeiro de Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959) que seguiu o curso da Escola Naval, foi cartógrafo, geógrafo, geodesista, navegador aéreo e historiador dos Descobrimentos e das questões de orientação naútica e astronómica. A sua vida passa por quatro áreas entrelaçadas umas nas outras: primeiro a marinha, que o fez andar embarcado em territórios como Moçambique e Timor.
Contemporâneo dos interesses europeus pelas colónias em África e Ásia, é como geógrafo ultramarino ao serviço da Comissão de Cartografia que desenvolve trabalhos de delimitação de fronteiras e estabelecimento de vértices geodésicos em Timor, Angola, Congo, Niassa, Zambézia, S. Tomé e Príncipe. Em missão na África Oriental conheceu Sacadura Cabral que o entusiasmará a interessar-se pela navegação aérea. Assim vamos vê-lo a desenvolver o sextante de bolha artificial, instrumento que procurava resolver as questões de orientação aérea e que vem a ser comercializado pela empresa alemã Plath. Gago Coutinho e Sacadura Cabral inventaram um “corrector de rumos Coutinho Sacadura” para resolver os problemas de desvio causados pelo vento. Com estes dois instrumentos na bagagem fazem viagens aéreas, entre elas, uma de Lisboa ao Funchal (1921) para testar aqueles instrumentos de orientação aérea. Como o ensaio geral correu bem, abalançam-se para a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, partindo de Lisboa no hidroavião Lusitânia, (2) em Março de 1922, e chegando ao Rio de Janeiro em Junho de 1922, a tempo de comemorar o 1º centenário da Independência do Brasil. Roteiro e peripécias da viagem: saíram de Belém, Lisboa, pararam nas Canárias, depois em Cabo Verde e em seguida Penedos de São Pedro e S. Paulo (arquipélago brasileiro de 13 Km, a 627Km da Ilha de Fernando Noronha), notando problemas de consumo de combustível, mas conseguindo seguir com rigor a rota que se tinham proposto, apoiados pelo sextante ou astrolábio de precisão. Só que ao amararem junto de Penedos, uma onda leva um dos flutuadores e o Lusitânia afocinha ficando com a cauda para fora. Como havia barcos a acompanhar, os dois homens salvam-se, embora o avião não possa continuar viagem. Recomeçam num outro Fairey 16, muito parecido com o Lusitânia que, azar dos azares, tem uma avaria no sistema de alimentação do motor, que os obriga a amarar de novo, antes da ilha de Fernando de Noronha, no meio do Oceano rodeados de tubarões, mas recolhidos por um navio inglês. É num novo Fairey que chegam, sãos e salvos e em glória, ao Rio de Janeiro. São recebidos apoteoticamente nesta cidade e em S. Paulo e no Recife, bem como em Portugal. Gago Coutinho e também Sacadura Cabral receberam variados louvores nacionais e estrangeiros pelo feito que praticaram. Em 1954 o Almirante é convidado pela TAP a fazer um voo experimental até ao Rio de Janeiro, mas só na década de sessenta serão estabelecidos voos regulares. Gago Coutinho dedicou a última etapa da vida a investigar e a publicar obras sobre História Naútica e navegação portuguesa. Morreu em 1959, velhinho de 90 anos.

Rota seguida de Lisboa ao Rio de Janeiro


Artur de Sacadura Freire Cabral (1881-1924) seguiu também a Escola Naval. Durante a 1ª Guerra Mundial serviu nas colónias portuguesas; mais tarde foi instrutor da Escola Militar de Aviação. Fez levantamentos hidrográficos em Moçambique, trabalhou como topógrafo, agrimensor, geógrafo e astrónomo. Conheceu e trabalhou com Gago Coutinho nas ex-colónias portuguesas e é ele que convence o Almirante a estudar e adaptar sistemas de orientação aérea à luz dos instrumentos usados pelos descobridores portugueses. Entretanto o Aero Clube de Portugal conseguiu que o governo abrisse um concurso para que oficiais da marinha e do exército fossem tirar o brevet de piloto aviador no estrangeiro. Sacadura Cabral esteve à roda de um ano em França onde estudou e praticou tudo o que se relacionava com aviões. Foi encarregado de organizar a aviação marítima em Portugal e como especialista foi ao estrangeiro escolher o material e o melhor avião para com Gago Coutinho realizar a viagem Lisboa - Rio de Janeiro. É que já tinham os instrumentos de orientação aérea e preparavam-se, como vimos, para o ensaio geral: a viagem Lisboa - Funchal. O resto da história já sabemos. É importante referir que um dos objectivos desta aventura era estabelecer ligações por via aérea com o Brasil, que, verdade se diga, não ficou muito entusiasmado. Só décadas mais tarde, nos anos sessenta, a TAP concretiza esta ideia. O seu espírito aventureiro, embora com pés bem assentes na terra, levou-o a propor uma viagem aérea de circum-navegação para a qual não arranjou subsídios. Pensou então numa viagem aérea à Índia, conseguindo por subscrição pública adquirir cinco aviões em Amesterdão. Em 1924, quando pilotava um deles em direcção a Portugal, desapareceu no Mar do Norte, nunca tendo sido encontrado o seu corpo. Paz à sua Alma! Louvor aos Heróis!

Fontes: 1) Ver As freguesias de Lisboa neste blogue. 2) O hidroavião Lusitânia encontra-se no Museu da Marinha em Lisboa. Dicionário Ilustrado da História de Portugal. http://museudarampa.blogspot.com/.  http://pt.wikipedia/ .
Veja neste blog os outros episódios da série Praças e Ruas de Lisboa:
- O Chiado:
- Avenida Álvares Cabral
- As freguesias de Lisboa:
- Belém - Lisboa. Do Museu da Electricidade até à Praça do Império:
- Belém – Lisboa. A Praça do Império:


* Maria do Céu Carvalho Dias é formada em História pela Universidade Clássica de Lisboa

5 comentários:

  1. Professora Céu
    Sou Kátia e moro em Caruaru, Pernambuco.
    Envie, por favor, uma receita de bacalhau em posta para eu preparar na Páscoa. Ninguém aqui em casa aguenta mais bacalhau a Gomes de Sá que faço todo ano na Páscoa. beijoss

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  2. Quanta coragem para fazer essa travessia naquela época. Eu ainda hoje sinto medo quando viajo de avião. Boa Páscoa professora!

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  3. Já estive três vezes em Lisboa mas não consigo visualizar a avenida Gago Coutinho nem a Praça do Areeiro.Parabéns pela ótima pesquisa.
    Ana Cláudia Lopes

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  4. Professora Céu
    Não abandonei o curso virtual de História com a senhora. É que andei muito ocupado com cursos e o trabalho e agora sou pai de uma menina linda. Mas continuei visitando o blog. Parabéns

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  5. Quando estudei em Portugal, morei na Avenida de Roma. Adorava aquele lugar.
    Camila Maia.

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